sexta-feira, 15 de julho de 2011

Escravidão Contemporânea

      Por
      Magno Viana

Em entrevista coletiva no dia 28 de abril do corrente ano, na Faculdade Cásper Líbero, o jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto afirmou que sua principal função como fundador e representante da ONG (Organização não governamental) Repórter Brasil, é lutar pela erradicação de uma forma escravista de relação entre empregadores e empregados. “A nossa instituição é especializada na preservação dos Direitos Humanos, e o fundamental para nós é tornarmos públicos os casos de violação das prerrogativas dos trabalhadores e ações prejudiciais ao meio ambiente”, disse ele.
Segundo Sakamoto, as ações articuladas com o Congresso Nacional e os governos federal, estaduais e municipais têm funcionado. “Desde 1995 com a pressão da sociedade civil, foram criados grupos para a fiscalização de empresas, com vistas à punição em casos de escravidão de pessoas no mercado de trabalho”. E ele assegurou que “dessa época à atualidade, 41.000 mil funcionários escravos foram libertos”.
O jornalista falou também sobre a existência de um documento em mãos do Governo Federal, chamado Lista Suja do Trabalho Escravo, que é utilizado pela ONG como fonte de investigação. “São nomes de produtores rurais inescrupulosos. O material nos serve de matéria-prima para desencadearmos as denúncias. Raramente vamos direto às empresas”. Acrescentando, ele esclareceu: “Depois que constatamos o delito, tanto encaminhamos um comunicado à Presidente da República solicitando a libertação, como fazemos a denúncia para que haja uma ação socializatória por parte do governo”.
Ele garantiu que em praticamente todos os Estados brasileiros foi detectada a escravidão, que se configura na atualidade como situação de degradância na realização das atividades, “condições humilhantes, atraso de salário, alimentação imprópria, local inadequado para dormir e cerceamento de liberdade, que ferem a dignidade humana”, argumentou. “Só se tem dúvida sobre a existência do crime em apenas uns três Estados. A condição de trabalho na maioria é nojenta, como na China, que se desenvolve fabricando produtos sofisticados: ifone, ipad, entre outros, por conta de uma mão de obra barata e em detrimento à natureza”.
É nas áreas de agropecuária e extrativismo que a ONG tem mais impacto na luta contra o trabalho escravo, mas, de acordo com o cientista político “o problema existe na construção civil, no derrubamento de madeira, no cultivo de café, açúcar e álcool”.
Ratificando a afirmação, ele mencionou o caso da Cosan (uma das maiores produtoras mundiais de açúcar, etanol e energia elétrica a partir da cana-de-açúcar), que estava explorando funcionários. “Com a denúncia dos consignatários do pacto contra a mão de obra escrava, no final de 2009, a empresa passou a fazer parte da Lista Suja, com isso o Wal Mart, Carrefour e o Grupo Pão de Açúcar, deixaram de comprar seus produtos: combustíveis e açúcar, e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), suspendeu quase 800 mil reais em crédito para a empresa. A Cosan caiu quase 6 pontos na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) e 3,5 por cento na NASDAQ (Nasdaq Nacional do Mercado de Valores). Na mesma semana, por meio de uma liminar judicial ela conseguiu sair da Lista, mas, a lição que fica é o susto para que o delito não se repita”.
O cientista disse que “pelo fato de a Repórter Brasil ter mais liberdade para fazer uma publicação bem mais esclarecedora e sistemática, mesmo não sendo grande imprensa, ela age junto a essa, potencializando as ações mediante matérias feitas na íntegra, e serve como ponte de diálogo entre empresas, governos e sociedade civil”.
Asseverou o jornalista que hoje se comete os mesmos erros do passado, a corrida pela lucratividade a qualquer custo. “Estamos fazendo o que mais criticamos durante a ditadura militar, pois falávamos que o Brasil é um país que alcança o progresso econômico sem se importar que, para isso, tenha que passar por cima de muita gente”, afirmou.
No ponto de vista dele, o trabalho escravo e todas as conseqüências advindas, como doenças, violência e total situação de miserabilidade, é resultado do modelo de desenvolvimento escolhido e aplicado no país, que por sua vez é excludente, concentrador, egoísta e conflitante. “Morrer deixou de ser o cessamento da existência para ser o cessamento da propriedade”, complementou.
O desafio da Repórter Brasil, por intermédio da aliança com outras ONGs, governos, empresas privadas, órgãos públicos e pessoas físicas, bem como a sociedade civil em geral, é bloquear comercial e financeiramente os empresários que não respeitam as leis que regem as relações de trabalho.

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domingo, 19 de junho de 2011

Perfil: Ana Rocha Melhado


13 de junho de 2011


A moça que sofreu longe da família, sem amigos, e morando em um quarto de pensão, superou as privações e conquistou seu espaço em São Paulo.


Uma História de Sucesso
Um dia na companhia da mulher que consegue ser engenheira, professora, empresária, esposa, mãe e filha ao mesmo tempo.




Por: Magno Viana


Ana Rocha Melhado, uma pernambucana que venceu os desafios de ter que se afastar da família ao mudar de Recife para São Paulo, se sentir só e residir em um quarto de pensão sem conforto e privacidade, ainda assim não se permitiu abater. Está com 44 anos, há 18 em São Paulo, casada com o professor da USP Sílvio Melhado há 15, mãe de Felipe, um menino de 12 anos, pelo qual ela se diz apaixonada.
É sociável e dinâmica: ao chegar ás 09h40min, o horário que conseguiu estar na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) nesta segunda-feira, abaixa o vidro do Spacefox - Volkswagen 2006, e diz: “bom dia, estou mal das vistas hoje”. Ao interrogá-la se a doença era conjuntivite, ela responde: “Não sei, talvez seja uma alergia, acho que nem vou poder dar aula, terei que passar no oftalmologista, mas você pode me acompanhar”.
Assim como o nome é expressivo, o currículo também é: Engenheira Civil, Pós-doutorada em Gestão Ambiental de Bairros Sustentáveis pela ISO 14001 e pelo processo de certificação HQE® (Haute Qualité Environnementale), realizado em Paris. Além de lecionar na Faculdade de Engenharia da FAAP, é a Sócia – Diretora da Proactive, (empresa de consultoria, atuando nas áreas de Gestão de Projetos e Sustentabilidade Empresarial).
Ela se considera católica, e como faz questão de observar: “não praticante”, mas acha que precisa pensar mais um pouco sobre o assunto. Independente da questão religiosa demonstra nobreza: “minha maior lição de vida é a humildade, e acredito que quando fazemos a nossa parte o resultado aparece”. Mesmo tendo uma vida cheia de atividade: ensino, viagens, cursos e palestras, não abre mão de um período para curtir a família: “ontem fui com meu marido e meu filho a uma pizzaria, depois fomos para casa terminar de assistir um filme”.
Ao ter como maior sonho a possibilidade de transformar o setor da construção em uma verdadeira indústria, trabalhar na formação de jovens e incentivar o estudo, por outro lado, ela também revela o maior medo: “ver o meu filho sofrer”.
Depois de fazer o exame de vista na manhã do mesmo dia, a professora me convida para almoçar. Caminhamos em busca de um restaurante que ela tinha visto há algum tempo, e que tinha lhe chamado a atenção. Após alguns minutos de caminhada, ela diz: “não estou encontrando, vamos almoçar naquele lá de trás mesmo”. É o Restaurante Casa das Massas, de origem italiana, com um cardápio variado, e um ambiente requintado.
Durante a refeição ela fala sobre diversos assuntos como arrependimento, velhice, desafios. E afirma que tem inveja de pessoas que conseguem manter o equilíbrio mesmo diante de uma injustiça, e que o seu ídolo é seus pais, “sempre esperançosos e bem-humorados, a minha mãe é uma luz, é impossível você ver minha mãe triste”.
Saímos do restaurante a caminho da FAAP, na estrada, ela descontraidamente confessa: “tenho uma enorme vontade de um dia morar em Paris”. Faz comentários sobre a agradabilidade e facilidade para se locomover na capital francesa “lá eu posso fazer tudo a pé, sem me preocupar com transito e congestionamento. Em uma cidade como aquela a gente anda muito, e isso é bom”.
De volta na faculdade, Ana precisava pagar algumas contas e enviar e-mails, para mais tarde participar de uma reunião com a arquiteta Heloise Amado, dona do escritório “Amado e Marcondes”, em parceria com o Sr. Rogério Marcondes.
Horas depois estávamos na reunião. Ana saúda a arquiteta, me apresenta à amiga e senta. A pauta eram dois projetos sustentáveis: Vitra, construção de um edifício, e Parque Catarina, edificação de um conjunto de casas. A engenheira diz para Heloise que em um período de três meses preparou o projeto para as duas construções.
Ela explica detalhadamente os passos a serem dados, olho no olho, voz audível, pronúncias bem articuladas: “precisamos fazer um cálculo para vermos se com a utilização da água da chuva, água cinza, negra e do subterrâneo, que é a água limpa, elaboração de relatórios e análise do sítio (lugar), conseguimos realizar os planos”.
Concluindo, Ana sugeriu um assunto para ser pensado de forma séria, e ser levado aos governos federal, estaduais e municipais: “acredito que o uso de 90 litros de água per capita sem comprometer o conforto e a qualidade do imóvel, deveria ser estabelecido como diretriz de projeto no Brasil”.
Saindo do escritório, a empresária diz: “tenho que ir correndo para casa, viajarei para Salvador hoje à noite”. Ela está trabalhando na capital baiana com a implantação de um Sistema de Gestão da Qualidade e Ambiental para a Incorporadora Syene (empresa imobiliária da Copasa, grande grupo espanhol com atuação internacional e mais de 20 anos de tradição).
A engenheira explica que “trata-se de um projeto de 24 meses, que foi iniciado em fevereiro de 2010”. Mas antes de pegar o avião, ela precisará fazer algumas ligações, vai preparar o Check-in (documento de verificação para que a passagem seja emitida), e arrumar as malas.
Em torno das 18 horas chegamos à sua bela casa, em um condomínio chamado Vila San Pietro na Granja Vianna. Uma residência com três salas. Na primeira, cortinas brancas nas paredes, fotos da família e algumas obras de arte. Na estante, livros, um peixinho de madeira e também objetos de cera, miniaturas de gado, bule e uma bordadeira.
Ao perguntar qual a origem das pequenas imagens, ela responde: “são lembranças do nordeste”. Mesmo mudando de Estado e alcançando o sucesso, ela não nega suas raízes. Livros na estante e revistas em uma cesta posta no chão junto a uma das paredes. Uma bola de fibra de poliéster em cima do sofá, e livros de ilustrações decorativas no meio da sala.
Não é das católicas mais fervorosas, todavia, aceita na sala um símbolo religioso: uma minúscula vela com a imagem de um anjo e a inscrição: “Cathédrale de Reims” (uma das catedrais góticas mais importantes da França). Na segunda sala, mais um espaço aconchegante e descontraído, no centro uma vasilha de cerâmica, lembrança de Belém-Pa. Imagens folclóricas de bonecas de barro, mais fotos da família e diversas miniaturas de carros, inclusive de corrida, com a marca Ferrari, impossível não vê um atraente pebolim (futebol de mesa) e um álbum de fotografias eletrônico da Sony.
Enquanto eu observo o ambiente, ela corre de um lado para o outro. “Vou pegar o avião daqui a poucas horas”. Liga rapidamente para o pai, que é chamado carinhosamente de “painho”, após alguns minutos de conversa, se despede dele, e passa a falar agora com a mãe, “oi mainha, bença mainha, parabéns (pelo aniversário)”. Ana se despede da mãe: “tá bom mainha, tchau”.
De repente ela fala novamente ao telefone com uma pessoa chamada Ângela “oi Ângela, vou ter que ir mais cedo para o aeroporto, porque eu não consegui fazer o check-in, estou sem conexão com a internet aqui em casa”. Depois de alguns minutos, se dirige para mim e explica: “estava falando com minha irmã, ela vai me ajudar a agilizar as coisas, família é isso”.


Ana é uma mulher apegada à família, ela sempre fala dos pais, irmãs, marido e filho. No primeiro andar da casa, mais fotos: uma do casamento, outra do pôr do sol registrado nesse mesmo dia do enlace matrimonial, e mais uma do filho. Ela começa a preparar as malas.
Sugere que eu conheça o escritório da família, “entra, mas está uma bagunça”. Nessa dependência do lar, também se pode ver nas paredes, diversas fotos de familiares e amigos, na estante um livro de sua autoria e co-autoria do Sílvio Melhado: “Preparação da Execução de Obras”. Em toda a casa uma verdadeira exposição de quadros, inclusive obras da autoria do marido e do filho.
As malas estão quase prontas, Ana desce para o térreo, porque falta o principal para a viagem: “vou apanhar o material de trabalho”, são livros, apostilas, mapas, desenhos, entre outros recursos. Mesmo em meio a tanta correria para não se atrasar, eu consigo interrompê-la e pergunto se a empresária joga o pebolim, a resposta é positiva. E ela me faz a mesma interrogação, a resposta é negativa. Ao ficar surpresa, me faz o convite para jogar, eu aceito e jogamos por uns cinco minutos, de repente ela fala um pouco apavorada: “tenho que correr agora, já deu para perceber que minha vida não é nada sedentária”.
Um taxista estaciona na porta, é seu Valdeir, o motorista preferencial da engenheira. Bagagem arrumada, tudo pronto, entramos no carro. Ela como sempre, não deixa de promover a interação entre as pessoas: “seu Valdeir, esse é o Magno, jornalista, está fazendo Pós-Graduação, e como trabalho de final do semestre, está fazendo um perfil Jornalístico de...” (uma personalidade, eu falo), ela ri, e comenta, “é exagero dele, o perfil é de alguém bem sucedido”.
O dia para Ana Melhado foi atípico, não pôde dar aula por causa do exame de vista, e como ela mesma afirmou, “não executei muitas atividades como de costume” (viagens para o interior do Estado, participação de curso, execução de projetos, entre outras), mas, mesmo não sendo uma segunda-feira como as habituais o dia foi produtivo e revelador.
Com persistência e atenção, dá para perceber que realização profissional não é sinônimo de solidão e arrogância. A história retratada mostra que é possível ter sucesso na carreira, em paralelo com a realização pessoal e familiar, dá para conciliar as conquistas materiais com a felicidade no amor. Amor e atenção aos parentes e amigos. Se não for um dos muitos modelos, esse talvez seja o exemplo mais evidente de uma história de sucesso.

segunda-feira, 14 de março de 2011

domingo, 19 de dezembro de 2010

Entrevista com o historiador e especialista em samba Evaristo de Carvalho

São Paulo
Assessora: Tulia Yamamoto
E-mail: tuliayamamoto9@hotmail.com
Tels: 3222-6343 / 9636-2521 / 9609-6567
Dia: 19/11/2010 – Às 12h30min.

1ª) Segundo estudiosos do samba e da indústria fonográfica, em 1920,
com a evolução da forma de se produzir discos e as inovações introduzidas no
estilo musical, ele foi transformado em produto.
Qual o seu ponto de vista com relação a essa afirmação?
Resposta:
A primeira gravação ocorreu em uma tarde de 1917 pela Odeon, de lá para
cá a indústria fonográfica cresceu muito, com o desenvolvimento técnico e o
aumento no número de gravadoras, surgiram as inovações no estilo, inclusive, se
criou o samba-enredo juntamente com os blocos das escolas de samba
carnavalesco.

2ª) Quais os aspectos positivos e negativos de todas as mudanças
sofridas pelo samba?
Resposta:
O sambista do morro sofre muito, é difícil conseguir mostrar o seu trabalho, e o samba quanto mais sofrido é mais bonito.

3ª) O samba foi totalmente descontextualizado ou, por meio do aparato
tecnológico conseguiu-se uma interpretação aprimorada do estilo?
Resposta:
O samba alcançou a alta sociedade brasileira. Ele, como tudo na vida,
evoluiu, se expandiu. Novos arranjos foram agregados ao samba.
É claro que a música, como na sua época inicial, o samba de raiz não é mais
prioridade, mas, o lado que acredito ser importante é a inserção do estilo na classe de poder aquisitivo alto.

4ª) O samba ainda comunica as mensagens que retratam tristeza,
dinheiro, preconceito, solidão e desigualdade social; ou o foco tem sido a
venda de produtos como CDs e DVDs?
Resposta:
Sim. O samba é isso, é a exposição de diversas histórias para as famílias.
História de tristeza, preconceito, desigualdade social. E o samba é nosso, por meio dele comunicamos muitas mensagens à família brasileira. Só que essas mensagens são passadas na atualidade por intermédio do samba-enredo, que é o samba carnavalesco, e, mediante a utilização dos recursos advindos da tecnologia. Penso que, por meio do samba-enredo é possível dar-se uma aula.

5ª) Em sua opinião o samba é o ritmo que representa o Brasil?
Por quê?
Resposta:
Sim. Porque o samba nasceu no Brasil, ele pertence ao país, e o simboliza.

6ª) O sambista no Brasil é conceituado pela mídia ou pelo público?
Resposta:
Pelo público. O público que o valoriza.

7ª) Muitos profissionais ligados ao samba (cantor, compositor) não são
conhecidos, porque não têm o apoio da mídia?
Resposta:
Verdade. Os músicos estrangeiros, dos Estados Unidos, por exemplo, tem
mais espaço do que os nacionais.

8ª) Os nomes ligados a esse ritmo que ganham destaque na mídia
representam realmente o samba no Brasil?
Resposta:
Representam. Alcione, Beth Carvalho, entre outros sambistas, têm efetuado
seu papel muito bem.

Entrevista com o sambista Almir Guineto

Rio de Janeiro
Teles: 9710-2854 / 7837-1133 / 3554-4283
Dia: 13/11/2010 – Às 20h00min.
Local: Bar Favela, Rua Mourato Coelho, Vila Madalena, São Paulo, SP.

1ª) Segundo estudiosos do samba e da indústria fonográfica, em 1920,
com a evolução da forma de se produzir discos e as inovações introduzidas no
estilo musical, ele foi transformado em produto.
Qual o seu ponto de vista com relação a essa afirmação?
Resposta:
As mudanças aconteceram por causa do progresso. Com a divulgação do
samba, as coisas “voam”, o artista fica famoso, o dinheiro aumenta, e se tem um
novo perfil de músico e de estilo de samba.

2ª) Quais os aspectos positivos e negativos de todas as mudanças
sofridas pelo samba?
Resposta:
Aspecto positivo se pode considerar o fato de o samba ter chegado a vários
lugares. Negativo: não se tem uma abertura para que todos os sambistas,
independentemente do nome possam apresentar seu trabalho.

3ª) O samba foi totalmente descontextualizado ou, por meio do aparato
tecnológico conseguiu-se uma interpretação aprimorada do estilo?
Resposta:
Sim. O samba virou mercadoria, não é semelhante à música que era tocada
no início. Ele virou produto a começar pela criação das escolas de samba.

4ª) O samba ainda comunica as mensagens que retratam tristeza,
dinheiro, preconceito, solidão e desigualdade social; ou o foco tem sido a
venda de produtos como CDs e DVDs?
Resposta:
A venda de Cd e DVD. Os sambistas hoje priorizam apartamento e um bom
cachê. Esse é o foco dos artistas atuais. Eles querem fazer sucesso e ter conforto
acima de tudo. Hoje é tudo descartável.

5ª) Em sua opinião o samba é o ritmo que representa o Brasil?
Por quê?
Resposta:
É. Porque nossa cultura popular vem de Caxambu (palavra que teve origem
indígena de Catã-mbu, também é o nome de um instrumento musical dos africanos),
dos antepassados, os quais deram base para o samba.

6ª) O sambista no Brasil é conceituado pela mídia ou pelo público?
Resposta:
Pelo público. Conceituado pela mídia no Brasil é o “mela cueca”, é o rock
holl. Samba puro não tem o suporte da mídia. Fica de pé porque é forte. O samba
“agoniza”, mas, não morre. Porque a cobertura que merece não tem.

7ª) Muitos profissionais ligados ao samba (cantor, compositor) não são
conhecidos, porque não têm o apoio da mídia?
Resposta:
Exatamente. Muitos artistas ficam em stand by por falta de oportunidade.
Têm muitos no anonimato que são talentosos. Quem chegou a alcançar o sucesso
teve que ser xereta, ou ser considerado assim.

8ª) Os nomes ligados a esse ritmo que ganham destaque na mídia
representam realmente o samba no Brasil?
Resposta:
É claro. O samba é o nosso ritmo. A terra é nossa não é terra do rock holl.
Os que alcançaram destaque na mídia são merecedores. Eu nunca vi um sambista
estar na mídia porque é mentiroso. São talentosos pra valer, têm dignidade.

Sarau: outra face da cultura

Em São Paulo, na “Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura”, situada à Avenida Paulista, nº 37, aconteceu no corrente ano, um sarau intitulado: “Poetas da Casa das Rosas”, sob a curadoria da poetisa Srª Maria Alice Vasconcelos, se pôde perceber os objetivos dos participantes que foram explicitados de forma tão nobre, profunda e natural. Demonstraram a busca pela interação entre os agentes sociais por meio dos discussos, músicas e poesias, elementos essenciais dos encontros, e a reflexão dos temas pertinentes à sociedade atual.
Os participantes têm sede pela autêntica cultura, que não seja proporcionada pelos Estados Unidos, Japão e muito menos a China, mas, uma manifestação cultural originada da capacidade criativa e do aprofundamento intelectual dos humanos. Não seria uma mercadoria oferecida pelas indústrias, cujo tempo de duração é extremamente curto e nada acrescenta aos consumidores passivos.
Percebemos que mediante os eventos uma parcela da sociedade projeta despertar e aprimorar a capacidade de inovação e criação dos participantes e demais membros sociais. Para eles, o lúdico despojado da maquiagem tecnológica, é um alvo a ser seguido de forma persistente.
Na casa, cantores, poetas e poetisas se revelam fundamentalmente para si mesmos e para a coletividade. O conteúdo programático do sarau é bem diversificado e transmitido ordenadamente. Apresenta-se um momento propício para o auto-conhecimento e a perfeita percepção do outro, que não deixa de ser o igual enquanto ser humano pensante e capaz de se “lapidar” continuamente por intermédio do crescimento interior.
Por mais que os produtos nacionais e internacionais como: filmes, games, CDs, DVDs, entre outros objetos efêmeros tenham sido forjados para entreter os compradores, não podem se aproximar da utilidade da cultura elaborada pela criatividade mental e transferida sem tanta cobertura tecnológica. Mas, pela sabedoria e habilidade interpretativa, mediante as quais se retrata primorosamente a arte, o cotidiano, e as perspectivas de futuro respaldadas no conceber teórico e visionário frutificado pela aquisição dos saberes.
Enquanto as massas dos tempos hodiernos devoram, o até então último modelo de celular, brinquedos, etiquetas fixadas em sapatos e roupas, as mais recentes versões de carros das diversas marcas existentes, e, as enxorradas de programas televisivos revestidos de futilidade; nos saraus, por outro lado, vivência-se a cultura em sua face áurea, que nem todos conseguem conhecer, talvez por que não queiram ou porque estejão em um estágio muito prematuro para perceber a grandeza da cultura original.
Nos estudos culturais na América Latina, oriundos da Teoria Culturalista, cujos expoentes são: Jesus Martin Barbeiro, Nestor Canclini, Edgar Morin, entre outros, a função principal é investigar as características dos países latinos com suas particularidades e pontuar analiticamente como a mídia as apresenta aos telespectadores. Pensa-se na necessidade do acesso a informação por parte dos integrantes das diferentes culturas. O intuito é descobrir e demonstrar como eles podem possuir um conteúdo portador de pormenores relevantes, que não são exibidos, por diversas razões, pelos meios de comunicação.
No ponto de vista de Martin Barbeiro, a mídia ao trabalhar a cultura latino-americana não o faz como deveria, pois faz de forma generalista (ampla, mas superficial) e não sistemática.
Entendemos, todavia, que não existe por parte da mídia oficial o interesse em retratar a cultura sem o aparato tecnológico. Os produtores da televisão, partem do princípio que o importante primordialmente nos programas é a conquista da audiência. O foco é vender o espetáculo, o produto, a imagem, a ideologia dos mantenedores do veículo, enfim, apresentar uma realidade fabricada de acordo com os interesses das empresas de comunicação, blocos empresarias e governos: federal, estaduais e municipais.
Falta a autenticidade e a criteriosidade na apresentação da cultura brasileira, que assim como as demais culturas latino-americanas é tão diversificada e rica. Na tentativa de fugir das problemáticas sociais como: violência, desemprego, falta de abrigo para moradores de rua, fome, salário defasado, injustiça social, corrupção, ausência de programas sociais, impunidade, falta de infra-estrutura e cronograma satisfatórios nas escolas do país, a mídia que prioriza os interesses comerciais transmite o irreal, não aprofunda as discussões, e se torna cúmplice do sistema sociocultural e politico fabricante de acomodados .
Para Barbero o estudo dos países da América Latina deveria levar em conta o histórico civilizatório de cada país, pois, cada nação teve uma forma de colonização, urbanização, revolução industrial, miscigenação e consolidação do modelo político, de maneira bastante diferente.
Em se tratanto estritamente do Brasil, sabemos que o país foi colonizado em um primeiro momento pelos portugueses, depois por outros povos como: holandeses e alemães, também vindos da afamada Europa.
Desta forma, que ao se falar e representar a cultura popular do país, assim como orienta o antropólogo Nestor Canclini, se leve em conta as diferenças cultivadas pelos habitantes de cada região, seus hábitos, crenças e tradições, e porque não dizermos, deficiências peculiares. São essas que os grandes empresários da comunicação não pretendem mostrar.
Os saraus objetivam exatamente estudar e tratar das temáticas sociais de forma desmascarada e objetivando a busca de soluções.
Pode parecer utopia, mesmo porque, no Brasil, a caminhada aparentemente ainda será muito longa para um estágio avançado em todos os aspectos socias: culturais, econômicos, políticos e educacionais. Mas, podemos vislumbrar que, por intermédio da verdadeira intelectualidade, intensificação da interação entre os agentes sociais éticos, conhecedores dos direitos e deveres e reivindicadores incorrigíveis, promova-se o humano e o projeta, simulataneamente, para uma vida nobre em sua cabalidade, com refinamento comportamental, crescimento da capacidade no universo artístico e alcance da cultura em seu ângulo mais inquietante e acresentador aos apreciadores e promotores, capaz de recriar novos parâmetros para as relações interpessoais.